Reunião entre Brasil e Rússia em Brasília pode gerar desgaste na relação entre Lula e Trump
- Ananda Moura

- há 5 horas
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04/02/2026 O governo brasileiro realiza nesta quinta-feira, dia 5, em Brasília, uma reunião com o primeiro-ministro da Rússia, Mikhail Mishustin, e ministros do alto escalão do Kremlin com o objetivo de ampliar a cooperação entre os dois países. O encontro, que havia sido suspenso após a invasão russa à Ucrânia, ocorre em um momento considerado sensível e pode impactar a relação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A retomada da 8ª Reunião da Comissão Brasil-Rússia de Alto Nível de Cooperação reacendeu discussões sobre o posicionamento estratégico do Brasil em meio à disputa entre grandes potências. A comissão coordena ações conjuntas entre ministérios dos dois países e estava paralisada desde 2015.
Segundo apuração jornalística, integrantes da delegação russa pretendem pressionar o Brasil a manter a dependência de fertilizantes produzidos pela Rússia. O insumo é visto como um elemento estratégico e pode ser utilizado como instrumento de troca por apoio político brasileiro em fóruns internacionais. Outro ponto previsto na agenda é a discussão sobre mecanismos de pagamento alternativos ao dólar, com uso de moedas locais.
O debate sobre a redução do papel do dólar no comércio internacional já vinha sendo defendido pelo presidente Lula desde 2023 e foi citado como um dos fatores que motivaram o governo Trump a elevar tarifas sobre produtos brasileiros no ano passado. A pauta interessa diretamente à Rússia e à China, que buscam reduzir a capacidade dos Estados Unidos de aplicar sanções econômicas com alcance global.
Em dezembro do ano passado, o governo norte-americano divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional, documento que coloca a América Latina como área prioritária da política externa dos Estados Unidos e destaca a necessidade de conter a influência de outras potências na região. Analistas avaliam que a cooperação entre países latino-americanos, Rússia e China passou a ser tratada com maior rigor por Washington.
De forma oficial, o governo brasileiro afirma que o encontro integra uma estratégia de diversificação de parcerias internacionais e de defesa do multilateralismo. A delegação russa conta com oito ministros, três vice-ministros, dirigentes de agências estatais e empresários. A movimentação de aeronaves russas em Brasília nos dias que antecedem a reunião tem despertado atenção e preocupação em setores da sociedade.
Especialistas ouvidos avaliam que o encontro funciona como um teste para a capacidade do Brasil de equilibrar interesses geopolíticos. No entanto, ponderam que um aprofundamento do diálogo com Moscou tende a ser interpretado internacionalmente como um sinal de alinhamento estratégico, com potencial para gerar novos atritos diplomáticos com os Estados Unidos.
O deputado federal Paulo Bilynskyj, do PL de São Paulo, avalia que a aproximação com a Rússia coloca o Brasil em uma posição vulnerável no cenário internacional, ao inserir o país em uma disputa direta entre Estados Unidos, China e Rússia. Para ele, a estratégia adotada pelo governo brasileiro pode associar o país a regimes sob sanções internacionais.
Na avaliação do professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, Ricardo Caichiolo, o atual ambiente geopolítico reduziu o espaço para políticas externas baseadas na neutralidade. Segundo ele, qualquer movimento que contribua para a economia russa tende a ser interpretado por Washington como um posicionamento político.
*As informações foram divulgadas inicialmente pela Gazeta do Povo.









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