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  • Guilherme Veroneze e Thiago Manzoni

Introdução - O caminho da servidão - Hayek

“Poucas descobertas são mais irritantes do que as que revelam a origem das ideias”. – Lord Acton


Essa é a epígrafe com a qual Hayek inicia sua magistral obra O Caminho da Servidão, obra que tem uma importância ímpar no momento em que estamos vivendo. Essa epígrafe demonstra como que encontrar a origem de onde certas ideias é algo que mexe com o outro lado, sobretudo porque quando as ideias são tortas e autoritárias, demonstrá-las de fato enerva aqueles que as defendem. Esse é o caso da Esquerda brasileira, que tanto fala em nazistas e fascistas, como um rótulo barato e simplório para colar em seus oponentes, mas defende ideias que são bastante convergentes com, justamente, o nazi-fascismo. Eis a importância de desnudar os que se escondem em vestes que, frente a mentes atentas, são vestes transparentes incapazes de esconder a falta de projeto, de moral e de compromisso com os seres humanos e sua mais sagrada liberdade.

Os acontecimentos contemporâneos diferem dos históricos pelo fato de que ainda estão em curso e, assim, é mais difícil conhecer os resultados que irão de fato produzir. Acontecimentos históricos, por outro lado, podem ser analisados, digeridos e compreendidos com mais facilidade e estão cristalizados, são até certo ponto imutáveis. Contudo, é possível aprender com a história para evitar a repetição dos erros do passado, isto é, não é ncessário ser um profeta para dar-se conta de certos perigos iminentes. Quando alia-se uma vivência que proporcione certa imersão histórica, bem como um interesse em certos temas sociais, certos espectadores podem ter visões ainda mais perspicazes do que a grande massa.


O caminho da servidão

O caminho da servidão é uma análise que se debruça sobre dois períodos históricos ou sobre a evolução de duas ideias muito semelhantes. Ideias podem se espalhar e provocar consequências análogas em países distintos, cada qual a seu tempo. É possível, assim, observar que as mesmas fases de um processo intelectual podem se dar em países com línguas e culturas diferentes e, quando se viveu na pele em uma dessas situações, a agudez dos sentidos fica apurada em reconhecer que aquele mesmo processo que se deu em um país, está ocorrendo no outro, mesmo que ainda de forma inicial. Hayek viveu o Nazismo e percebeu que certos fragmentos das ideias totalitárias ali contidas estavam reaparecendo em outros países, em especial na Inglaterra, onde viveu após deixar a Áustria. Ele reconhecia que na Inglaterra tais ideias ainda estavam em estágios preliminares, mas vaticinava que essa estrada, de rumo ao totalitarismo, era um caminho que a cada passo que se avança é mais difícil de se voltar atrás e daí todo cuidado é pouco. Como ele próprio disse de forma precisa e eloquente "Se, a longo prazo, somos os criadores do nosso destino, de imediato somos escravos das ideias que criamos". Daí a relevância de se entender como as ideias nascem e influenciam a vida de uma sociedade. Sua obra foi não apenas um alerta para a Inglaterra e o mundo anglo-saxão, como indiretamente para todas as demais nações.


Hayek, com grande mérito, bem aponta o que poucas mentes são capazes de afirmar com clareza: a ascensão do nazi-fascismo não foi uma reação contra as tendências socialistas daquele momento, mas sim o resultado dessa mesma tendência, a aplicação prática de ideias que tinham visível semelhança com a doutrina do socialismo. As semelhanças da Rússia comunista e da Alemanha nacional-socialista são hoje mais conhecidas e, como bem apontou Jean-François Revel em seu livro A Grande Parada, posteriormente, a maioria dos dez pontos defendidos no Manifesto Comunista foram publicamente implementadas por Hitler. Hayek, por ter vivido essa época, teve a clareza mental de observar tais semelhanças com facilidade e com antecedência.


O caminho da servidão

A escalada rumo a regimes autoritários e a defesa do socialismo são uma questão que não deve se limitar apenas à política partidária. É algo tão importante que transcende essa arena. Quando se percebe que, em algum grau, todos os mais eminentes veiculadores de ideias são socialistas, tem-se um perigo mortal de essa caminhada rumo ao totalitarismo ser feita a passos paulatinos, graduais, que são enganosos, tal como o sapo que morre na água sendo cozido aos poucos. E mesmo pessoas com menor grau de socialismo e os inocentes úteis podem acabar sendo tragadas para a defesa desse caminho, sem perceberem. Nesse cenário torna-se essencial entender a origem das ideias e os métodos do inimigo. Não devemos, os liberais, nos bastar a dizer que defendemos a liberdade e que cada um lute sua vida de acordo com as suas ideias, pois isso não é o suficiente, não é eficaz. Ademais, as táticas de propaganda e desinformação dos totalitários são muito eficazes e sutis, logo clareza e coragem para enfrentar e demonstrar os problemas dessas torpes ideias totalitárias, disfarçadas de bom-mocismo, é crucial nesse processo de defesa da civilização.


É bom lembrar que os alemães não são um povo pervertido, seria uma simplificação brutal e errada. Grandes pensadores, como John Stuart Mill, apoiaram-se e se inspiraram em alemães como Goethe e Wilhelm von Humboldt, para escrever obras em defesa da da liberdade. É necessário, pois, entender a evolução das ideias e como elas evoluíram por décadas para trazer a frente os elementos mais viciosos que não faziam jus ao povo alemão. Compreender isso nos ajuda a compreender também os perigos que rondam a nossa própria sociedade.

É importante notar que a narrativa de que o nazismo foi uma reação fomentada por aqueles detentores de interesses e privilégios ameaçados pelo socialismo é falha. O conflito entre a dita "direita" nacional-socialista e a esquerda foi típico do que se observa na luta entre duas facções socialistas rivais, como num "teatro das tesouras". Os socialistas germânicos socialistas alemães encontraram grande apoio, na Alemanha, em certos aspectos da tradição prussiana; e o parentesco entre prussianismo e socialismo, do qual ambos os lados se glorificam na Alemanha, fortalece nosso principal argumento. Mas é um erro pensar que foi um elemento tipicamente alemão, tipicamente local e nacional o grande causador do nazismo quando existe um claro elemento socialista que transcendeu nações e influenciou não apenas a Alemanha, mas simultaneamente a Itália e a Rússia. Esse é o principal eixo dessa percuciente análise de Hayek, é a espinha dorsal que necessita ser compreendida.


O caminho da servidão


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