Diagnóstico aponta desafios e potencial da cafeicultura no DF para geração de renda
- Ananda Moura

- há 4 dias
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23/03/2026 Apesar do crescimento recente, a produção de café no Distrito Federal ainda precisa avançar em organização e estruturação para se consolidar como atividade econômica capaz de gerar renda aos produtores rurais. Essa é a principal conclusão do Diagnóstico da Cadeia Produtiva do Café no DF, elaborado pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal em parceria com a Embrapa Café.

O levantamento identificou que, em 2024, a cafeicultura ocupou cerca de 420 hectares na região. Entre outubro de 2024 e março de 2025, foram entrevistados 134 produtores, e os dados mostram que a atividade ainda não representa fonte de renda para a maioria. Segundo o estudo, 82% dos cafeicultores não obtêm retorno financeiro com a produção, enquanto 59% não realizam controle de custos e 92% não possuem acesso a financiamento ou crédito rural.
A comercialização também é limitada. O diagnóstico indica que 63% dos produtores não vendem o café colhido. Desse total, 45% das lavouras ainda estão em fase de formação e 18% destinam a produção apenas ao consumo próprio. A predominância é de pequenas propriedades, com a maior parte das áreas cultivadas inferior a um hectare.
Entre os principais obstáculos apontados estão a escassez de mão de obra, dificuldades no controle de pragas e doenças, custos elevados de insumos e limitações na etapa de processamento dos grãos. Mesmo assim, o estudo destaca condições naturais favoráveis à produção, especialmente para cafés especiais, como altitude elevada, clima seco durante a colheita e presença de sistemas de irrigação.
O levantamento também identificou aspectos positivos relacionados à assistência técnica e à infraestrutura produtiva. Cerca de 95% dos produtores recebem acompanhamento técnico, principalmente da Emater-DF, e 87% utilizam sistemas de irrigação. Além disso, mais da metade realiza análise de solo, prática considerada importante para garantir estabilidade e produtividade em regiões sujeitas a períodos de seca.
Especialistas envolvidos no estudo avaliam que a qualidade do café produzido no Distrito Federal tem se destacado, mesmo sem uma cadeia produtiva plenamente estruturada. A análise sensorial das bebidas indica bons resultados, associados principalmente às características climáticas e à altitude da região. Para que a atividade se torne economicamente sustentável, a avaliação técnica aponta a necessidade de organização da produção e fortalecimento dos canais de comercialização.
O diagnóstico também servirá de base para a formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento da cafeicultura local. As próximas etapas do projeto incluem a realização de um dia de campo para produtores, a criação de uma unidade demonstrativa de tecnologias ainda neste ano e a capacitação de extensionistas, em parceria com instituições de pesquisa agrícola.
Os dados revelam ainda baixa eficiência produtiva em parte das propriedades. Enquanto a produtividade considerada adequada para o café arábica gira em torno de 60 sacas por hectare, muitos produtores no DF registram rendimento inferior a uma saca por hectare, e apenas um grupo reduzido supera a marca de 20 sacas por hectare. O diagnóstico aponta que melhorias no manejo das lavouras, escolha adequada de cultivares e adoção de técnicas sustentáveis são medidas essenciais para elevar a produtividade.
Em nota, a Secretaria de Agricultura do Distrito Federal informou que foram identificadas dificuldades adicionais, como limitações na estrutura de pós-colheita, falta de conhecimento técnico especializado e barreiras no acesso ao crédito. Para enfrentar esses desafios, produtores e instituições criaram uma Câmara Setorial da Cafeicultura, com propostas que incluem ampliação do financiamento rural, capacitação técnica e incentivo ao uso de tecnologias.
Segundo matéria do Correio Braziliense, outra iniciativa em andamento é um estudo conduzido pela Universidade de Brasília com o objetivo de caracterizar as condições naturais e produtivas da região e viabilizar o reconhecimento de uma indicação geográfica para o café do Distrito Federal, estratégia que pode fortalecer a identidade do produto e ampliar sua competitividade no mercado.
O levantamento também destacou a participação expressiva das mulheres na atividade. Elas estão presentes em cerca de 75% das áreas cultivadas e assumem responsabilidade direta pela produção em mais da metade das propriedades. A atuação feminina tem sido apontada como fator relevante para a expansão e diversificação da cafeicultura local, inclusive com iniciativas voltadas à produção de cafés especiais e à integração com atividades como o turismo rural.



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