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Capítulo 3 - A Literatura Sob o Capitalismo - A mentalidade anticapitalista - Ludwig von Mises

3.1 O Mercado para os Produtos Literários

O Capitalismo, diferente da sociedade de castas, é um sistema que incentiva a atividade de inovadores. A recompensa, o lucro, é o prêmio pelo atendimento das necessidades no mercado e o prejuízo é a punição aos que ficam obsoletos no tempo. O indivíduo é livre, nesse sistema, para mostrar o que pode fazer melhor que os outros. Contudo, tal liberdade não é absoluta, mas sim limitada ao mercado, aos anseios e às necessidades daqueles que compõem o público consumidor.

É um sistema que derrama fartura sobre o homem comum, que possibilitou a milhões o acesso a bens e serviços que outrora eram restritos às elites. Um exemplo claro desse mercado antes restrito e agora acessível às massas é a literatura. Rádio, teatro, jornais, revistas antes eram consumidos por uma minoria e, hoje, são feitos e acessíveis para as massas. Nessa nova realidade, surgiu uma classe de literatos, de pessoas que ganham a vida escrevendo.


Na era pré-capitalista, escrever era um ofício ou uma arte mal-remunerada. Ferreiros e sapateiros ganhavam, na média, mais do que escritores. Escrever era uma arte liberal para a grande parte que assim o exercia, como se fosse um passatempo, não uma profissão. Era algo restrito a pessoas nobres, ricas, aristocratas, cavalheiros, clérigos ou políticos que assim o faziam, em suas horas de folga, com recursos próprios. O homem comum que tivesse o impulso ou inclinação de fazê-lo, deveria garantir uma fonte de renda primária, independente da atividade de escrita. Mises cita os exemplos de Spinoza, que polia lentes, e de Stuart Mill, que trabalhava na East India Company. Alguns, mais sortudos, viviam da generosidade de reis, príncipes ou outros abastados, que patrocinavam poetas e escritores, num regime de mecenato. Nessa praxe de patrocínio, havia (em boa medida) razoável liberdade de expressão e quando muito, se algum conteúdo ofendesse autoridades eclesiásticas, eram protegidos por seus patronos ou também podiam refugiar-se em uma corte rival, caso sofresse algum tipo de banimento.

Essa relação de dependência ou submissão financeira tinha um quê degradante e a evolução para um mercado de produção capitalista, no que tange à literatura, parecia ser promissor para poder emancipar os escritores da tutela de reis e aristocratas. Os consumidores finais é quem seriam os novos soberanos que remunerariam os escritores.

3.2 Sucesso no Mercado do Livro

A Literatura não é, em si, a esfera do conformismo, mas sim da dissidência. Autores que repetem apenas o que todos querem ouvir não são considerados como relevantes pelos críticos. O que vale é o inovador, semeador de novas ideias, que escreve com ineditismo, rejeitando valores e ideias tradicionais por outros novos. É o autor que é oposto à maioria de seus contemporâneos. Contudo, são esses autores radicais e inovadores, que a grande maioria não compra, na realidade.

Marx e Nietzsche foram grandes sucessos póstumos. Durante a vida, se não tivessem outras fontes de sustento, teriam morrido de fome. Isso se dá porque no mercado de massas dos livros, consegue se sustentar o autor de ficção que escreve para as massas. O não-conformista e inovador não consegue sucesso nesse mercado usual. Dessa constatação, surge a ideia, reverberada por críticos, de que o capitalismo tenha causado a decadência da literatura. Contudo, é necessário observar que muitos autores hoje reverenciados, como um Stendhal, morreu obscuro e mal-compreendido. Daí, é válido se questionar se na realidade não é a nossa própria capacidade de discernimento presente que permanece igualmente falha, como já o era lá atrás.



O Capitalismo, assim, pode permitir uma abundância material que faz com que floresça um próspero mercado cultural. Não pode, porém, automaticamente fornecer a todos os cidadãos um senso apurado de um mecenas. Não é, portanto, culpa do sistema capitalista se o homem comum não aprecia livros considerados verdadeiramente notáveis.

3.3 Observações sobre histórias de detetive

As histórias de detetive, como ramo da literatura, surgiram concomitantemente ao movimento anticapitalista, com autores socialistas como Edgar Wallace e George Douglas Howard Cole. Tal ramo poderia ser chamado, por algum marxista, quase como uma superestrutura artística de época do sindicalismo e da socialização.

Vários psicólogos, sociólogos e historiadores tentaram investigar a popularidade desse gênero literário, sendo a mais profunda dessas investigações a feita pelo professor William Osgood Aydelotte. Esclarece o professor que essas tramas descrevem histórias em que há um mistério a ser desvendado e o leitor se identifica com o detetive e faz dele uma extensão de seu próprio ego. Esse leitor é o homem comum que, em grande parte, é um frustrado que não atingiu a posição que sua ambição lhe impelia. Falhou ao decidir ser um bom cidadão, fiel à lei, enquanto seus competidores foram bem-sucedidos por terem optado agir desonestamente. Mas o dia de julgamento desses novos-ricos, tidos como cidadãos exemplares pela sociedade, mas desonestos em sua conduta pessoal, há de chegar e ele mesmo, o cidadão comum, em sua fantasia, irá desmascará-los e desvendar seus crimes. Eis o "script" dessas histórias que encontram eco no imaginário desses homens comuns, por isso tamanha popularidade.

Um exemplo clássico na dramaturgia é o livro (e também peça teatral) “The Pilars of Society” de Henrik Ibsen. Nessa obra, um detetive vai atrás de um empresário, um burguês bem-sucedido, para investigá-lo, desmascará-lo e até demonstrar que os inspetores policiais, do governo, são lenientes e até parciais, como se estivessem em conluio, para (não) resolver o mistério ali tratado. O triunfo do detetive corresponde não só à vitória do detetive sobre um burguês farsante, mas também à exposição do fracasso das autoridades do governo burguês que escolheu tais policiais. Os livros de detetive exploram esse desejo latente no imaginário, de uma boa parcela de seus leitores, de ver os bem-sucedidos se darem mal, pois, afinal, se tão longe chegaram é porque têm culpa no cartório e vê-los algemados sendo levados pela à prisão, isto é, se dando mal enfim, seria a vingança perfeita para acalmar seu sentimento de inveja.



O aspecto emocional, o sentimento de inveja e de uma suposta injustiça é usado como sustentáculo de diversas dessas obras que chegam a ser previsíveis em sua trama. Um clichê literário que fez tanto sucesso por saber explorar esses sentimentos tão básicos dos seres humanos.

3.4 A liberdade de imprensa

A liberdade de imprensa é um dos pontos mais centrais de um país com cidadãos verdadeiramente livres. É um dos itens que compõem o centro do liberalismo clássico e até hoje é tido como um pressuposto consensual e crucial entre os diversos tipos ou vertentes de liberais.

A imprensa livre só pode existir onde o controle dos meios de produção é privado. Ao contrário, se o governo é quem controla as máquinas e os redatores, não há garantia de liberdade de expressão, pois ele quem definirá quem terá qual espaço e o que poderá ou não dizer. Quando países livres caminham (ainda que paulatinamente) para o socialismo, há uma erosão dessas liberdades. Nos tempos atuais, com a batalha pelo controle das redes sociais, percebe-se uma mesma inclinação tomando corpo, com grupos de pressão querendo cooptar esse controle sobre as "big-techs" do que pode ou não ser dito.

Muitas das táticas da guerra no campo das ideias, atualmente, são mais sutis do que há um século atrás e os progressistas sabem muito bem manejá-las. Organizam a opressão a autores contrários à pauta do progressismo via boicote a autores ou editores, a pesquisadores (no campo mais estritamente acadêmico) ou a jornalistas, a influenciadores ou até mesmo a atores teatrais ou televisivos cuja linha de abordagem não convirja estritamente à sua ideologia. A recente perseguição até mesmo com uso do aparato judicial para cima de artistas do ramo de piadas (stand-up comedy) ilustra bem isso.

Qualquer um é livre para abster-se, voluntariamente, de ler, ouvir o ver conteúdos que lhe desagradam e recomendar a outros que também o façam. Contudo, quando o exercício de um ofício profissional é ameaçado, seja pela força do Estado, seja por força de grupos organizados que atuam em coordenação com os políticos do regime de ocasião, aí sim há um sério risco à própria ideia de democracia e de um dos seus grandes sustentáculos (e instrumento de sua defesa por excelência) que é a liberdade de expressão, sobretudo a de imprensa.



3.5 O Fanatismo dos Literatos

Há atualmente, assim como havia desde a metade do Século XX, quando esta obra de Mises foi escrita, uma hegemonia da mentalidade progressista e socialista, bem como de suas sub-variantes, na mídia, na intelectualidade e no meio da formação da opinião pública, pois esses entenderam desde cedo, com Gramsci o espírito de uma frase que o grande estadista Churchill, por vezes, repetia: "não existe opinião pública e sim opinião publicada". O controle das ideias embebidas nas narrativas que são publicadas é, portanto, essencial e o grau de intolerância desses grupos progressistas com ideias divergentes é demonstração de certo viés ou inclinação ao totalitarismo.

O grande dogma dessas correntes progressistas perpassa vários autores do marxismo utópico, do marxismo dito científico, da escola historicista alemã dentre outros. A amálgama delas, está calcada na ideia claramente sofismática de que a pobreza é resultado de instituições sociais injustas. O pecado original residiria na propriedade privada e nas empresas privadas, de modo que o capitalismo, caricaturalmente (ou até infantilmente) pintado, atende apenas aos interesses egoístas dos ferozes exploradores, que condenariam as massas a um empobrecimento e degradação a olhos vistos. O remédio a isso seria a submissão do aparato produtivo ao Estado, inaugurando uma era de fartura e abundância para todos. Os que querem ver essa chegada a outro patamar (utópico) virar realidade se autodenominam progressistas e tacham de reacionários todo e qualquer que se oponha a essa suposta caminhada inexorável ao "progresso".

Certas políticas de curto prazo defendidas pelos ditos progressistas, que amenizariam o fardo das massas, são calcadas em decisões econômicas ilusórias e destrutivas no médio longo prazo: expansão artificial do crédito, aumento do piso do salário mínimo, impressão de moeda, artificialidades no mercado como o uso de controles de preços (seja de bens, serviços ou mesmo do crédito subsidiado, que vão em grande parte para os "amigos do rei"). Contudo, os resultados dessas panaceias econômicas no médio e longo prazo é exatamente o oposto do que esses progressistas defendem: o crescimento de curto prazo vira estagnação e depois recessão econômica perversa. A alegria do curto prazo vira a ressaca dos anos seguintes. Qualquer semelhança com o boom dos anos Lula e depois a pior recessão do século no Brasil, nos anos Dilma, quando essas políticas se acentuaram, não é mera coincidência, mas sim a consequência inevitável dessas políticas. Boa parte do ganho de renda que tivemos foi estagnado e boa parte evaporada, de 2011 até 2016, seja por recessão, seja também por efeitos inflacionários que são oriundos desse tipo de política econômica.



O truque intelectual, ou melhor seria dizer embuste ou farsa, dos progressistas é se valer de um reducionismo agudo e do maniqueísmo para cooptar as frágeis mentes e as emoções dos que não raciocinam de modo mais apurado. Dividem o mundo entre duas classes, vilões e mocinhos, respectivamente os empresários (exploradores) e os empregados (explorados), que lutam para se apoderar de sua “justa parte” na Renda Nacional.

Diante do conflito entre as duas classes, conflitos esses mais estimulados e mais imaginários do que no mundo real, os progressistas se colocam como moderadores salvadores, como se pudessem administrar um enganoso meio-termo de uma economia socialista, em que via Estado e os intelectuais - os professores, representantes da ciência, e os escritores, representantes da literatura - devem atuar como árbitros imparciais que, de forma "técnica" (ou científica), irão harmonizar os interesses e harmonizar de forma justa o evidente conflito.


Não é necessário muito para refutar tal narrativa, mas apenas destacar três erros fundamentais nessa história. O mais importante nessa história não é uma suposta briga distributiva da Renda Nacional entre empresários e empregados, mas sim a substituição de um sistema (capitalista) que gerou altos ganhos de produtividade (melhoria de renda para todos) por um outro (socialismo) que não melhorou os padrões de vida dos trabalhadores, aliás muito pelo contrário. E o pior é que qualquer tentativa de debate racional e calcado em dados não é levada a sério pelos socialistas, que tratam como se fosse um crime de lesa-majestade qualquer tentativa de analisar os fracassos materiais, da condição de vida dos povos que vivem sob o regime comunista e os porquês disso, à luz da teoria econômica. O debate sempre acaba virando um circo onde os oponentes da visão socialista de economia são difamados, insultados, escorraçados e boicotados.

O segundo erro fundamental, nesse truque intelectual, é entender, de uma vez por todas, que não existe diferença, sob um ponto de análise econômica, entre socialismo e comunismo. Ambos atuam como mesmo mecanismo de controle dos meios de produção pelo Estado e, para que não restem dúvidas, o próprio documento em que os socialistas marxistas consideram uma pedra angular, um elemento basilar de sua doutrina, se chama Manifesto Comunista e o nome oficial do império que colocou as ideias em prática era União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Socialismo e Comunismo são indissociáveis.


A única distinção que se pode arguir é sobre os meios ou ferramentas: para os ditos socialistas, os meios a serem utilizados para o controle do mecanismo produtivo são as leis ou a constituição, como propugna Gramsci, enquanto a outra corrente irmã defende uma tomada violenta do poder. O objetivo final, a consecução que se propõem a fazer, é o mesmo. Logo, o socialismo não é um antídoto ou uma barreira de contenção, não representa formas menos radicais de intervenção na Economia, pois a meta final acaba sendo a mesma. Como Mises diz de forma magistral, há apenas uma distinção que se pode fazer: " O socialista é mais moderado do que o comunista no sentido de ele não subtrair documentos secretos do seu país para entregá-los aos russos nem de conspirar para o assassinato de burgueses anticomunistas. Trata-se, é claro, de uma diferença muito importante. Mas não tem qualquer relação com o objetivo final da ação política".


O terceiro erro a ser levado em conta nesse truque ou farsa intelectual, é a noção de que pode existir um regime de economia mista, algo híbrido, que verdadeiramente concilie os interesses. As evidências de que o intervencionismo estatal na economia piora os níveis de vida são abundantes e não é uma questão de politizar a preferência por um regime em detrimento do outro e aniquilar a possibilidade de um intervencionismo de meio-termo que harmonize as dualidades e o conflito: é simplesmente a constatação factual de que períodos com maior intervencionismo na economia geram menor crescimento econômico e até piora nos padrões de vida, por vezes. Não é uma questão de opinião, mas sim uma questão factual, empírica, real. Aliás, os fluxos migratórios no mundo têm uma grande tendência que é muito fácil de perceber na prática: cidadãos tendem a migrar de países menos liberais (maior grau de intervencionismo econômico) para países de economias mais liberais, justamente em busca da melhor qualidade de vida que essas nações conseguem alcançar.



Por fim, é necessário sempre lembrar que Marx e Engels defenderam o uso de práticas intervencionistas como primeiros passos preparatórios para mais à frente haver o estabelecimento pleno do comunismo. A filosofia social e econômica dos progressistas é, sem meias-palavras, o pretexto perfeito para o socialismo e o comunismo. Devemos aceitá-las brandamente e não denunciar essa evidente farsa intelectual? Decerto que não.


3.6 Os Romances e Peças "Sociais"

O público, cada vez mais influenciado por ideias socialistas, pede peças, romances e seriados "sociais". Os autores, que chafurdam nessas ideias, estão prontos para atender a essa demanda, criando histórias em que condições adversas são sempre colocadas como uma consequência do capitalismo, bem como os vilões via de regra são empresários e tipos bem-sucedidos. Os operários, imersos na penúria e ignorância, são sempre as vítimas dos exploradores e nunca de seus próprios atos e condutas pessoais.

Os roteiros seguem sempre esse mesmo “script”, de pintar um burguês bem-nascido, favorecido, explorando coitados proletários que são sempre pintados em cores mais desoladoras do que a realidade. Reforçam a lenda de que quanto mais o capitalismo progride, personificado em algum vilão com traços psicóticos e malévolos, mais as vítimas ficam à mercê e deterioram suas tão precárias condições. As histórias são retratadas como se fossem estudos de caso marxistas.

O problema de muitos autores, por vezes, nem é a situação retratada em si. Por vezes há autores que até erram de maneira sincera, sem segundas intenções, retratando casos de países mais pobres em que as massas de fato sofrem. São incapazes de perceber, porém, que o sofrimento desses não se dá por causa do capitalismo, mas por ausência de um capitalismo funcional, sadio, por políticas que sabotam o funcionamento dele, tão usuais em países mais pobres e em desenvolvimento. Retratam as condições de países de economia pouco liberal e creditam, equivocadamente, ao capitalismo as mazelas ali existentes.

De todo modo, o que se vê, em grande medida, é que os autores são incapazes de entender que é o capitalismo que gera a produção em larga escala que permite aos mais pobres melhorarem seu padrão de vida, década após década. Descrevem o operário ou assalariado apenas como explorado, mas nunca como o beneficiário final do sistema, como consumidor dos produtos e serviços que a economia capitalista moderna gera. Deixam de considerar, em contrariedade com os fatos, que o assalariado, em grande parte, não vive em condição de miséria. Um dos maiores exemplos desse tipo de literatura foi Émile Zola, que produziu um conjunto de romances que mais parecem um conjunto de homílias socialistas.



Quanto aos críticos literários, tal grupo também ecoa as obras e considera que o que é ali, distorcidamente retratado, é nada mais do que fatos verídicos da vida proletária. Contudo, o que os autores fazem não é retratar a realidade, mas sim interpretar com um viés escancarado, traçando um ponto de vista que reflete os ensinamentos de Marx, Veblen e Webbs. Toda a estrutura de acontecimentos econômicos e sociais retratados nessas obras é feita sob uma base principiológica e de estruturas (pseudo) econômicas claramente socialistas, destilando lições dos doutrinadores anticapitalistas. Os críticos literários parecem sempre embarcar nessa alucinação coletiva, reforçando a narrativa.

Muitos desses escritores de peças “sociais” foram nascidos em berços confortáveis, em famílias cuja condição os permitiu ter mais facilidade em se aventurar em ramos literários. Outro grupo, porém, dos escritores de peças "sociais" que nasceram em lares mais proletários, com mais dificuldades financeiras do que o primeiro, representa um aspecto ainda pior no que tange à honestidade intelectual. O simples fato de eles próprios terem galgado posições na sociedade, por puro mérito próprio, passando a compor uma classe que tem uma remuneração maior graças a seu afinco no trabalho, demonstra claramente que os bem-sucedidos não o são por serem patifes, mas por terem tido méritos e esforços que são reconhecidos pelo mercado, neste caso o mercado literário. São pessoas que começaram do nada, fizeram-se por si, apenas. Logo, quando adotam em suas obras tais enredos socialistas (tais falsificações grosseiras da realidade) conclui-se que são livros ainda piores do que seus colegas escritores burgueses que, ao menos, acreditam naquilo que escrevem.

Não é incomum, nessas obras, que o homem de negócios seja retratado como um enganador, um magnata larápio sofisticado que aplica golpes, vendendo aço defeituoso, comidas estragadas, produtos tóxicos que matam pessoas, sendo agentes sórdidos que subornam autoridades e enganam seus empregados, como se todos que lhe rodeassem fossem absolutos idiotas e ele o único esperto do enredo. Outros detalhes caricaturais dizem respeito a estilo de vida, que mistura jogos, vícios, promiscuidade e madrugadas com amantes, prostitutas e afins. Um clichê que chega a ser cafona de tão previsível e inverossímil.

Uma coisa, porém, tais autores parecem compreender: a realidade social é tão complexa que simplificações emocionais grosseiras e mentirosas acabam fazendo um grande sucesso. Entendem, assim, que o grande público consome com prazer e avidez esse tipo de obra, sem nenhum grande questionamento, e, ironicamente, parece ser algo que o próprio regime que tanto criticam lhes propicia: por haver um amplo público, um consumo de massa tão poderoso e pujante, as massas leitoras são compostas em grande parte por pessoas relativamente alienadas e que acreditam ou se conformam com tudo que lêem, mesmo que seja uma evidente falsificação imoral da realidade. Justamente o público perfeito que escritores de ficção sempre puderam almejar, é o que o tão mal falado capitalismo veio a lhes entregar. No fundo, tais autores amam o capitalismo e tudo que ele pode lhes proporcionar. A posição anticapitalista é uma pose, é uma confortável fachada para ganhar dinheiro alheio (das massas).



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