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  • Guilherme Veroneze e Thiago Manzoni

A mentalidade anticapitalista - Ludwig von Mises

Breve Introdução à obra A Mentalidade Anticapitalista de Mises


A substituição de métodos mercantilistas por um "laissez-faire" liberalizante provocou, no mundo, uma melhoria de padrão de vida sem precedentes e permitiu o aumento populacional robusto visto nos últimos dois séculos. Os países mais prósperos foram justamente aqueles que não puseram sérios obstáculos à livre iniciativa e à propriedade privada, sendo os EUA um dos maiores exemplos disso. Todavia, muitos integrantes das classes intelectuais têm repulsa ao Capitalismo, retratando-o como um sistema que provocou miséria, exploração e desordem social, fruto de supostos empresários gananciosos e individualistas que não produzem nada de útil e não se importam com nada além do lucro. O capitalismo é, nesse caldo de cultura dos intelectuais, algo abominável e tudo de ruim que há no mundo deriva dele. O objetivo desta obra de Mises é avaliar as origens psicológicas dessa visão distorcida de mundo e discutir também suas consequências.

Capítulo 1. As Características Sociais do Capitalismo e as Causas Psicológicas de seu Descrédito

1.1 O Consumidor Soberano

O Capitalismo moderno é alicerçado na produção para consumo em massa, para o povo, obtendo como resultado um aumento no padrão médio de vida dos cidadãos. O consumidor é o soberano que, ao decidir comprar ou não comprar um rol de bens e serviços, determina o que e em qual quantidade e qualidade eles devem ser produzidos. O mercado de luxo é algo secundário e bem pequeno frente ao mercado como um todo, que serve primordialmente às massas, ao homem comum. Os desfavorecidos de outrora (escravos e servos) ascenderam socialmente com o mercado de consumo em massa e agora suas preferências individuais constituem o farol pelo qual a maioria dos homens de negócio se orientam e disputam. Os consumidores, como bem diz Mises, se tornaram "os patrões que têm o poder de tornar ricos os fornecedores pobres, e pobres os fornecedores ricos", por meio de suas decisões individuais de consumo.

Nessa nova estrutura da sociedade, em que o governo e os políticos não sabotam a livre iniciativa, não há mais nobres ou aristocratas mantendo uma ralé submissa, por meio de velhos privilégios herdados, e o caminho para a riqueza só pode ser obtido via o atendimento das necessidades dos consumidores. O controle dos meios de produção é uma função direta dessas necessidades e sujeito à permanente confirmação ou revogação pelos consumidores soberanos, a cada decisão de compra ou não compra, num contínuo plebiscito mercadológico.



O conceito moderno de liberdade é isso: o indivíduo é livre para traçar seus planos, fazer suas escolhas dentro das possibilidades que lhe ocorrem e que ele mesmo cria em meio à sua realidade, sem coerção por uma autoridade central planejadora que compulsoriamente o determina a agir dessa ou daquela forma. Os fatores de restrição ao indivíduo, portanto, não são oriundos majoritariamente do Estado, mas sim da sua própria realidade fisiológica, psicológica e do mundo econômico em que ele se insere, mundo esse em que há uma natural e inexorável escassez de recursos (naturais, financeiros, tempo etc) para todos e que impõe a necessidade se tomar decisões individuais que maximizem o bom uso desses fatores limitados.

1.2 A premência de Aperfeiçoamento Econômico

Sob o capitalismo o homem comum tem acesso ao consumo de bens e serviços que eram acessíveis apenas a castas privilegiadas, anos atrás, e até mesmo a alguns que nem mesmo a elite tinha à sua disposição, pois sequer existiam. Poucos norte-americanos têm a noção de que o alto padrão de vida desfrutado por sua população é algo fora do alcance de grande parte dos povos que habitam países não-capitalistas ou que são capitalistas mais no papel do que na prática do mundo real. Alguns cidadãos têm uma tendência a depreciar algo (de valor) que detêm e a almejar coisas absolutamente inacessíveis, de forma patológica. Há, decerto, tendências comportamentais como essa, que beiram o insaciável, porém, o padrão geral dos seres humanos é uma tendência saudável a nunca desistir de aumentar seu bem-estar, por meio de decisões racionais e intencionais.

Um problema que ocorre, porém, é que esse desejo natural de melhoria é feito de forma equivocada, escolhendo ferramentas ou meios inadequados. Adere-se a falsas ideologias e a políticas econômicas que, quando analisadas a fundo, são contrárias ao objetivo inicial de melhoria no padrão de bem-estar. Incapazes de analisar os efeitos de longo prazo, os cidadãos comprazem-se com os efeitos positivos de curto prazo, efêmeros, insustentáveis e que cobram um preço alto mais a frente.

O único meio exequível e sustentável de proporcionar a melhoria no bem-estar dos cidadãos é acelerar o crescimento do capital acumulado frente ao crescimento da população. Quanto mais capital investido por trabalhador, mais bens e serviços poderão ser produzidos e consumidos, premissa básica do capitalismo. Não obstante, boa parte do sistema político, que é um reflexo parcial da sociedade votante, busca minar ou até destruir esse sistema (no Brasil e no mundo afora), o que faz Mises levantar as pertinentes questões: " Por que todos eles detestam o capitalismo? Por que, ao mesmo tempo em que desfrutam do bem-estar que o capitalismo lhes confere, lançam olhares saudosos aos 'bons velhos dias' do passado e às condições miseráveis do trabalhador russo de nossos dias?".

1.3 A Sociedade de Status e o Capitalismo

Antes de adentrar nas respostas a essas questões, é pertinente avaliar o lugar-comum, no mundo das ideias, de se comparar os capitalistas da economia de mercado ("ricos burgueses") com os antigos aristocratas da sociedade de status. Cabe frisar que a mera existência de alguns indivíduos mais afortunados do que outros, per se, nada pode nos dizer ou esclarecer, a priori, sobre a justiça ou injustiça dos resultados de um sistema econômico. Enquanto a riqueza dos aristocratas não era um fenômeno de mercado, mas sim fruto de privilégios arbitrários concedidos pelo Estado, a riqueza dos capitalistas modernos, numa sociedade de livre iniciativa, é fruto do atendimento a uma freguesia que decide livremente comprar ou não seu produto ou serviço. Enquanto senhores feudais e congêneres não atendiam de fato a consumidores livres, o capitalista moderno luta para atender a sua volúvel clientela da forma mais rápida, eficiente e prestando um serviço que atenda aos anseios desses consumidores, pois sem isso não há geração de riqueza, não há retorno sobre o capital investido.

Em uma sociedade baseada em status ou castas, a situação de um indivíduo é prefixada pelos costumes ou leis. Deveres e privilégios são predeterminados e raros são os casos em que por sorte ou azar um indivíduo ascende ou descende de sua situação econômica originária. O indivíduo, nesse regime, não se sente parte de uma nação ou mesmo de uma comunhão com os demais cidadãos pertencentes a outras camadas. Até mesmo usos linguísticos e de roupas são determinados por forças externas e o indivíduo nada pode fazer para mudar a sua situação. No regime capitalista, por sua vez, ascendem financeiramente na sociedade, aqueles que conseguem ofertar bens e serviços e satisfazer melhor as necessidades e anseios de seus semelhantes. Não há critérios arbitrários, julgamentos acadêmicos de valor ou coisa do tipo, mas sim julgamentos de cada indivíduo, como cidadão consumidor, que decide comprar ou pactuar com A, B ou C, e ascendem os que melhor atenderem ao soberano consumidor. Nos dizeres de Mises, "para quem reclama da injustiça do sistema de mercado, cabe somente um conselho: se quiser enriquecer, tente satisfazer o público oferecendo-lhe algo mais barato ou de que ele goste mais". Essa é a lei da democracia econômica de mercado.



1.4 O Ressentimento da Ambição frustrada

Em uma sociedade baseada em castas, em status, o indivíduo pode atribuir a culpa pelo seu destino aos fatores externos como nascença, pertencimento a uma classe, de modo que seus resultados são fruto de forças que ele não controla. Não se é um nobre, um duque ou coisa semelhante porque houve azar de não se nascer em família aristocrática. Na sociedade de mercado, no entanto, o destino de sua vida depende massivamente de seus próprios esforços, de o indivíduo sabre criar e aproveitar as oportunidades a partir de seus méritos. Se alguém lhe pergunta "por que você recebe apenas 15 dólares por dia de trabalho enquanto fulano recebe cinco vezes mais", não há muito a quem culpar a não ser a si mesmo. A dita dureza do capitalismo é essa, ele trata cada um de acordo com o que ele consegue agregar de valor e bem-estar, de soluções que cada um consegue oferecer aos seus concidadãos, por meio do livre mercado. Sua remuneração advém desse grau de satisfação que ele consegue oferecer a demandas de outras pessoas. Salvo raras exceções, não há ninguém a culpar pelo insucesso a não ser a si mesmo. A consciência de suas derrotas e de suas deficiências é mais evidente nesse sistema.

Com o intuito de se autopreservar e restaurar sua autoafirmação, alguns indivíduos buscam avidamente bodes expiatórios para justificar suas derrotas e muitos hábeis políticos e intelectuais se valem desse sentimento para instilar nesses indivíduos um sentimento contrário ao capitalismo, portanto. Os demais foram bem-sucedidos por serem exploradores, desonestos, individualistas, egoístas, enquanto o que lhe fez fracassar foi a sua bondade a sua honestidade. Cria-se um maniqueísmo, um dualismo entre virtude e pobreza como oposição a imoralidade e riqueza. O homem tolo manifesta esse sentimento de forma direta e enérgica, por meio de calúnia e difamação aos bem-sucedidos e defensores do capitalismo. Os mais sofisticados (ou talvez até cínicos) sublimam esse ódio numa espécie de filosofia do anticapitalismo, que permeia sua visão de mundo em que o mal a ser dissecado, analisado e contra o qual se luta (por meio de um embate político e cultural) é o sistema capitalista, o (neo)liberalismo, o livre mercado e todas as roupagens ou rótulos que se queira dar a fenômenos similares. Defender e sonhar com um mundo mais "justo" que o trate de acordo com o seu "real valor" acaba sendo o doce e quente refúgio de todos esses que têm falhas de autoconhecimento ou que, alternativamente, buscam se alavancar nesse estado de espírito dos demais vitimistas para galgar posições de destaque (para seu próprio proveito pessoal) no mundo da política ou das ideias.



1.5 O Ressentimento dos Intelectuais

O homem comum tende a conviver com pessoas como ele, isto é, tem poucas e rasas experiências práticas ou duradouras de se relacionar com outros razoavelmente mais bem-sucedidos, com alto êxito econômico ou empresarial. Sua inveja e ressentimento se dá, na prática, contra abstrações genéricas como "o capital", "Wall Street" ou "os empresários". Por outro lado, pessoas que, por situações profissionais ou familiares, estão em contato direto com os bem-sucedidos, tornam-se agudamente frustradas, pois os supostos culpados têm uma personalização concreta. Raciocinam que o capitalismo deu a essas pessoas bem-sucedidas a posição que ela própria deveria ter. É o que ocorre, tipicamente, com os tipos intelectuais como jornalistas, escritores, cientistas sociais, advogados dentre outras classes profissionais.

A eles, frente a esse convívio pessoal que lhes torna cientes de suas incapacidades, cabe apenas maldizer a organização econômica da sociedade, o capitalismo, pois se não fosse este injusto sistema, suas habilidades e talentos seriam reconhecidos e ele teria a recompensa à sua altura. Dada a natureza do convívio mais próximo, para que os demais que lhe rodeiam não percebam seu ressentimento e inveja, o que seria visto como uma péssima conduta e o depreciaria aos olhos dos demais, resta se valer dessas mesmas abstrações genéricas para maldizer, porém num tom ainda mais agudo. Seu ódio ao sistema não passa de um simples subterfúgio do ódio abstrato que sente pelo sucesso concreto de alguns colegas.



1.6 A Tendência Anticapitalista dos intelectuais americanos

A tendência a uma postura anticapitalista nos intelectuais é mais acentuada nos EUA do que na Europa por certas questões sociológicas. Para entender isso, é necessário compreender o que vem a ser a "sociedade" ou no dizer dos franceses "le monde". Na Europa, a "sociedade" abarca todos aqueles que se destacam em alguma de várias esferas de atividade, isto é, abrange um espectro de ofícios mais heterogêneo como políticos, jornalistas de renome, médicos, engenheiros, advogados, músicos, cientistas, homens de negócio e descendentes de famílias nobres, dentre outros tipos. O nível de socialização é mais amplo, estabelece-se por um convívio onde assuntos intelectuais são a tônica e remonta aos costumes que se iniciaram na Renascença, passaram pelos salões parisienses e foram emulados por boa parte das nações europeias ocidentais e centrais. A posição e o prestígio se dão não por dinheiro em si, mas por destaque em algum domínio profissional ou do saber. Nos Eua, por sua vez, a dita "sociedade" restringe-se basicamente às famílias mais ricas e não há um padrão de socialização intelectual tão heterogêneo. O homem de negócios bem-sucedido não busca esse convívio com públicos que se interessam por assuntos culturais e por debates e trocas intelectuais, mas sim por outros homens de negócios e suas respectivas famílias.

Assim, quando um grupo de pessoas tende a se segregar do resto da nação, especialmente de líderes intelectuais, acaba sendo inevitável que se torne alvo de fortes críticas desses excluídos ou banidos de seu círculo. Isso acaba por gerar animosidades e levam os intelectuais a se inclinar ainda mais às políticas anticapitalistas.

1.7 O Ressentimento dos trabalhadores do colarinho-branco

A categoria dos trabalhadores do colarinho-branco, isto é, daqueles que trabalham convencionalmente em escritórios, em trabalhos administrativo-gerenciais, lidando com números e coordenando o trabalho de equipes de subordinados mais operacionais, também nutre algum sentimento anticapitalista. Por vezes, essa classe, vaidosa de seu trabalho diferenciado, imagina-se parte de uma potencial elite gerencial, sente-se como se fosse um patrão, um trabalhador especial que usa o cérebro. Porém, o salário desses nem sempre é tão distinto dos trabalhadores operacionais. Desse modo, eles se vitimizam pensando que o sistema não valoriza seu ofício de natureza intelectual, distinto dos demais bárbaros trabalhadores manuais ou operacionais.

Tal conjunto de trabalhadores não percebe, porém, que seu ofício, realisticamente analisado, não passa de um conjunto de tarefas em grande parte rotineiras, relativamente estruturadas e que não exige um treinamento tão altamente especializado. Mais: esses profissionais também convivem, em seu ofício, com outros colegas que ascenderam na alta hierarquia e também (por certa inveja) racionalizam, equivocadamente, que seu relativo insucesso é fruto do "injusto sistema capitalista, denunciado por todos os livros e jornais, pelos letrados e políticos como fonte de toda desordem e miséria".

O próprio Lenin e seus camaradas de partido, em grande parte, nunca entenderam e vivenciaram uma atividade empresarial do ângulo superior, nunca souberam nada sobre a operação real de uma economia de mercado, nem nunca quiseram saber. Viviam de renda extorquida pelo Partido e, quando muito, alguns camaradas tinham apenas esse tipo de experiência de terem sido trabalhadores do colarinho-branco. Lenin jamais teve a menor compreensão realista dos desafios que a administração de um negócio tem, na vida real: a inexorável escassez dos fatores de produção, as incertezas das condições futuras as quais a linha de produção terá de suprir, a necessidade de optar entre diversas soluções tecnológicas possíveis, aquela que estejam numa posição de equilíbrio e prejudique menos o conjunto de múltiplos objetivos planejados (lucratividade, custo baixo de produção, nível ótimo de estoques etc). Nenhuma dessas considerações que são absolutamente centrais a qualquer atividade produtiva é abordada a fundo nas obras de Marx e Engels.

1.8 O Ressentimento dos "Primos"

Em uma economia de mercado que seja de fato livre de interferências estatais, o processo de transferência de riqueza das mãos dos menos competentes para os mais competentes nunca termina. Essa mutação se dá seja por motivos mercadológicos, de alteração de preferências dos consumidores, de eficiência produtiva (inovações tecnológicas), seja por fatores subjacentes ou exógenos (políticos ou macroeconômicos). No decurso da vida de um homem de negócios, seu ânimo, energia e desenvoltura, para lidar com essa plêiade de fatores, tendem a se esvanecer, com o avançar da idade, e a competência para proceder aos ajustes de rota que o negócio exige (imerso em um mercado em contínua mutação) tende naturalmente a diminuir. Em grande parte, ao fim da vida do empresário, a herança é dissipada entre os herdeiros e aquele nível de riqueza se redistribui e não se perpetua. Nem sempre a próxima geração tem a aptidão técnica para manter o negócio em prosperidade ao longo do tempo ou mesmo a vontade de fazê-lo.

Entretanto, em alguns raros casos, a família é bem-sucedida em forjar alguns pouquíssimos e seletos herdeiros que continuarão a frente dos negócios e irão torná-los ainda mais prósperos. Nesses casos, costuma ocorrer uma situação em que a família se divide entre duas categorias: a dos que dirigem os negócios e a dos demais, a quem Mises chama de forma agregada de “os primos”.

Esses ditos “primos” recebem rendimentos oriundos da empresa da família, contudo não estão a par dos negócios e não têm a compreensão realista dos desafios que um empresário enfrenta. Pior, muitos, por terem uma quantia de renda considerável, pela qual não lutaram para conquistar, e por serem desocupados, quase inúteis nessa geração de renda, tornam-se “playboys”, esbanjadores, passam o tempo em clubes, jogatinas, boates e farreiam sem parar. Ademais, muitos desses estudaram em escolas e faculdades modernas, de elite, em que há um arrogante desprezo à ideia de buscar enriquecer.

Dessa situação decorre que muitos “primos”, ainda que razoavelmente ricos, sentem-se prejudicados pelos acertos financeiros entre eles e os que gerem a empresa da família, os familiares patrões, mesmo que essa partilha de renda e patrimônio tenha sido pactuada pelo patriarca em comum acordo por todos. Por vezes, por estarem alheios aos negócios e alimentados por uma visão mecanicista marxista de que capital gera automaticamente lucros, passam a ter uma postura de inveja e de beligerância com seus familiares “patrões” que gerem o negócio. Alimentam a ideia de que eles fazem pouco para merecer seus altos salários e que provavelmente seus familiares patrões estão lhe enganando e subtraindo o patrimônio da família, por meio do "pro labore" gerado na atividade empresarial.

Essas brigas, por vezes, extrapolam o âmbito familiar e ganham a arena pública. Os “primos”, como uma espécie de revanche velada e embebidos por um caldo cultural anticapitalista, dão vazão e financiam aventuras “progressistas” no campo das artes e da cultura (jornais e peças de teatros de cunho progressista), chegam a apoiar movimentos externos contrários aos negócios da família (ONGs) ou até mesmo movimentos internos, na forma de apoio a movimentos grevistas nas empresas de onde vêm seus rendimentos. Em outros casos, chegam até mesmo a direcionar contribuições financeiras consideráveis para partidos e entidades comunistas, tudo em nome da luta contra o “funesto sistema capitalista”, que é o bode expiatório para justificar sua renda e prestígio menor, frente aos familiares que tocam os negócios da família.

1.9 O Comunismo da Broadway e de Hollywood


O capitalismo tem proporcionado, nos últimos três séculos, um crescimento de renda discricionária para a população que forjou as condições para o florescimento de uma pujante indústria moderna do entretenimento e espetáculo (cinema, teatro, produções de TV etc). Atores e diretores de sucesso, nesse ramo, ostentam facilmente salários na casa dos seis dígitos e, no entanto, é bastante comum que sejam os mais fanáticos defensores de regimes progressistas, revolucionários ou até comunistas. Há algumas teses que buscam explicar esse misterioso paradoxo.

No capitalismo, o sucesso financeiro de alguém está intimamente ligado à capacidade dele em atender às demandas do público consumidor. Os produtores de mercadorias físicas, mais palpáveis, sabem que seus produtos são adquiridos em boa parte por questões mais tangíveis e objetivas e há um grau menor de alteração da situação de mercado em curto período de tempo, isto é, empresários dedicados e inteligentes podem prever com um grau maior de confiança como o mercado e suas atividades se comportarão.

No ramo do entretenimento, por outro lado, há um elemento de novidade maior e variabilidade. O público busca entretenimento por estar entediado e, assim, nada pior do que uma opção de entretenimento com o qual já se está acostumado. O público é mais extravagante e volúvel em seus hábitos e decisões de consumo e, assim, anseia por mais novidades. Mesmo um magnata do palco ou da tela deve temer os caprichos do público, pois pode estar rico hoje e em pouco tempo sair do gosto dos consumidores. Vive, portanto, ansioso.

Praticamente nada pode lhes aliviar esse estado de espírito senão algo alternativo, como uma utopia onde todos terão de tudo e estarão felizes, como pregam as obras comunistas. Mas, naturalmente, nenhum desses comunistas do entretenimento (sobretudo de Hollywood e da Broadway) estudou de fato as obras dos autores socialistas ou análises sobre economia de mercado. Mas, justamente pelo desconhecimento, é que esses acreditam que todas as angústias e mágoas serão superadas, desde que os “despojadores” do sistema capitalista sejam eles mesmos os alvos a serem despojados.

Cabe também, como reflexão, avaliar que o próprio comunismo e progressismo, na cultura moderna, sobretudo com o advento da escola de Frankfurt, passaram a ser cultuados no meio cultural e se tornaram como grifes, como uma forma de associação simbólica que conta pontos na cota pessoal (e mercadológica) do profissional do entretenimento. Estar associado a essas causas lhes rende, além de mais socialização e reputação no meio cultural, mais convites de trabalho, mais oportunidades de negócios e, assim, não por desconhecimento, mas por puro autointeresse, muitos profissionais do ramo abraçam essas falidas ideologias em nome de auferirem aquilo que tanto condenam publicamente: lucros. Talvez isso seja uma faceta e uma demonstração disso em que eles têm o dom e são tão bons: vender ou encenar ilusões, atuar e vestir um personagem fictício ou, sem meias palavras, vender mentiras como verdades, fazendo disso seu meio de vida.

Não é de se impressionar que muitos desses altos profissionais do ramo do entretenimento também preguem as facetas modernas do comunismo, sob a forma de progressismo. Evocam as pautas ambientais por um lado, mas continuam a voar para cima e para baixo em seus jatinhos particulares com alta emissão de CO2, pregam constrição de consumo, mas moram em luxuosas mansões e com um padrão de consumo que aumenta a pegada ecológica. Novamente, encenam a defesa de um padrão de comportamento que não exercitam em suas vidas particulares, meio ao estilo “façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço”.


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