Governo arrecada bilhões com bets enquanto cresce número de endividados, doentes e famílias afetadas
- Ananda Moura

- há 4 horas
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28/04/2026 A arrecadação com jogos de azar e apostas esportivas mais que dobrou no início de 2026, segundo dados divulgados pela Receita Federal nesta terça-feira, 28. O setor movimentou R$ 3,3 bilhões entre janeiro e março, consolidando-se como uma das atividades que mais geram receitas para o governo federal.

No mesmo período de 2025, o volume arrecadado somava R$ 1,5 bilhão. O avanço representa um crescimento de 123,7% em termos reais, conforme a classificação por atividade econômica.
O resultado coloca o segmento entre os que mais cresceram na arrecadação federal no período, com ritmo superior ao de setores tradicionais da economia.
Lucro para o governo, prejuízo crescente para famílias
Enquanto a arrecadação cresce, especialistas alertam para o aumento dos impactos sociais associados às apostas. Levantamento realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indica que cerca de 10,9 milhões de brasileiros apresentam comportamento de risco em relação às apostas, e aproximadamente 1,4 milhão já desenvolveu transtorno associado ao jogo, com prejuízos pessoais e sociais.
Dados do Ministério da Saúde apontam que o uso problemático de apostas está relacionado ao aumento de casos de ansiedade, depressão, endividamento e conflitos familiares, levando o tema a ser tratado como uma questão emergente de saúde pública.
Segundo o ministério, o perfil dos pacientes atendidos por dependência em jogos mostra impacto direto nas relações familiares, com relatos frequentes de perda de renda, isolamento social e deterioração da convivência doméstica.
Endividamento dispara com avanço das apostas
O crescimento das bets também tem sido associado ao aumento do endividamento das famílias brasileiras.
Pesquisa divulgada pelo instituto PoderData, em parceria com o portal InfoMoney, aponta que 35% dos apostadores afirmam estar endividados por causa das apostas, percentual que mais que dobrou em menos de um ano.
O levantamento mostra ainda que parte significativa dos entrevistados admite ter utilizado crédito, empréstimos ou recursos destinados a despesas básicas para continuar apostando, o que agrava o risco financeiro das famílias.
Estimativas citadas pelo jornal Estado de Minas indicam que cerca de 7,5 milhões de brasileiros comprometem parcela relevante da renda com apostas, situação que aumenta a vulnerabilidade econômica e o risco de inadimplência.
Conflitos familiares e separações também aumentam
Os impactos das apostas não se restringem à esfera financeira. Pesquisadores e órgãos públicos apontam crescimento de conflitos familiares associados ao vício em jogos.
Relatório técnico do Ministério da Saúde indica que o comportamento compulsivo em apostas está entre os fatores que contribuem para o aumento de episódios de violência doméstica, abandono familiar e ruptura de vínculos afetivos.
Embora não exista um indicador nacional específico que isole as apostas como causa exclusiva de separações, estudos sobre dependência em jogos mostram forte correlação entre o vício e o desgaste conjugal.
Pesquisa internacional da Universidade de Oxford, frequentemente utilizada como referência por especialistas brasileiros, aponta que até 23% das pessoas com transtorno relacionado ao jogo relatam separação ou divórcio associado ao problema.
No Brasil, levantamento citado pela Agência Cidades indica que o vício em apostas tem sido um fator recorrente em atendimentos de assistência social e aconselhamento familiar, especialmente em casos de endividamento severo e perda de patrimônio.
Especialistas destacam que o impacto emocional e financeiro do jogo compulsivo costuma gerar ciclos de conflito doméstico, perda de confiança e instabilidade familiar, aumentando a probabilidade de separações.
Problema já é tratado como questão de saúde pública
O avanço das apostas levou o tema a ser classificado por especialistas como um problema de saúde pública.
Levantamento citado pela Agência Cidades indica que mais de 12 milhões de brasileiros estão em situação de risco em relação ao jogo, com impactos que incluem ansiedade, depressão, insônia e dificuldades financeiras.
Segundo o Ministério da Saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS) já registra aumento na procura por atendimento psicológico relacionado ao uso compulsivo de apostas, especialmente entre jovens adultos.
O governo federal criou recentemente um observatório específico para monitorar os efeitos das apostas eletrônicas sobre a saúde mental da população.
Arrecadação cresce em meio à expansão do mercado
A expansão das receitas com apostas ocorre em um cenário de aumento geral da arrecadação federal.
As receitas administradas pela Receita Federal somaram R$ 758,8 bilhões no trimestre, com crescimento real de 5,59% na comparação anual.
A tributação do setor começou a valer em 2025, com alíquota inicial de 12% sobre a receita das empresas. O Congresso aprovou ainda um aumento gradual dessa carga tributária, que deve chegar a 15% até 2028.
Um mercado bilionário com custo social crescente
O crescimento das apostas no Brasil revela um contraste cada vez mais evidente: de um lado, o governo amplia a arrecadação e fortalece as receitas públicas; do outro, aumenta o número de brasileiros endividados, doentes e com famílias afetadas.
Estudos estimam que os impactos econômicos e sociais das apostas — incluindo gastos com saúde, perda de produtividade e conflitos familiares — já geram prejuízos de bilhões de reais por ano para o país.
De acordo com a Agência Cidades, o custo social associado ao jogo problemático pode se aproximar, em alguns cenários, do volume arrecadado com o setor, evidenciando que o crescimento econômico das apostas vem acompanhado de consequências significativas para a sociedade. *Com informações da Revista Oeste



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