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Capítulo 5 - A mentalidade anticapitalista - Ludwig von Mises

5.1 “Anticomunismo” Versus Capitalismo Nunca, em lugar algum do universo, existiu absoluta estabilidade ou imobilidade. As mudanças e transformações da realidade são ingredientes essenciais da própria existência. A vida é um processo de mudanças, jamais de calma e repouso, jamais de status quo. Contudo, utópicos sempre querem nos vender uma ilusão de que é possível uma existência imutável, por meio da caminhada ao fim da história que estabelecerá uma realidade de calma permanente e final. Tentam vender um acalentador cenário que é, pois, impossível de ser alcançado.


Há motivos psicológicos que explicam o porquê desse tipo de ilusão ter alguma penetração na psique humana. Mudanças causam incerteza e alguma angústia, nos impelem a nos adaptarmos, altera o nosso bem-estar. Mudanças atingem interesses estabelecidos, ameaçam os intelectualmente inertes e as formas tradicionais de produção e consumo. Embora tradicionalmente, na política, tenha sido usado o termo reacionário para se referir aos conservadores, o fato histórico é que os maiores exemplos de reacionarismo, no dizer lapidar de Mises, foram dados "pelas corporações de artesãos que impediam o acesso à sua especialidade aos recém-chegados; pelos fazendeiros que exigiam proteção tarifária, subsídios e “equiparação de preços”; pelos assalariados hostis ao progresso tecnológico e que instigavam o sindicato a forçar o empregador a contratar mais operários do que o necessário para um determinado serviço, e outras práticas similares". O fato é que essas políticas são historicamente defendidas de forma massiva por partidos de cunho coletivista-esquerdista, não por conservadores. Boêmios, artistas e escritores, historicamente, demonstraram sempre um certo deboche pela atividade empresarial, como se fosse algo pouco intelectual ou enriquecedor. No entanto, empresários apresentam maior capacidade intelectual e intuitiva do que um pintor médio. A prova dessa incapacidade desses artistas é a própria falta de percepção e de compreensão de como é complexo administrar um negócio, quantas variáveis humanas, tecnológicas, financeiras e mercadológicas são necessárias para se sopesar e tomar decisões que podem representar o sucesso ou o fracasso de um empreendimento. A ironia disso tudo, é que o crescimento dessa classe de (pseudo) intelectuais das artes, da literatura e até do jornalismo, foi catapultado justamente pelo crescente excedente de produção gerado pelo Capitalismo e seus empresários tão mal-compreendidos ou mesmo difamados, caluniados.

Há quem pense que o caminho seria tentar cercear, limitar o alcance das falas e opiniões desses decadentes literatos. Contudo, aí está a porta para o inferno, na medida em que dar-se-ia poder para o Estado determinar um juízo do que é bom ou mau e, assim, estaríamos na antessala do totalitarismo e, consequentemente, da decadência manifesta e iminente. E quando o Estado pode mandar nas opiniões, pode mandar em tudo mais e, aí, a própria prosperidade econômica (além das vidas) também estaria em xeque-mate. A corrupção moral e a esterilidade intelectual dessa classe de pretensos autores e artistas é, no fim das contas, um efeito colateral ou preço que tem se ser pago, num real regime de liberdade, pois o resultado final da concessão de liberdade para todos (inclusive aos mais ambiciosos, inventivos e trabalhadores) mais do que compensa esses efeitos deletérios. As frívolas doutrinas desses não causam mal, per se, mas sim a aceitação pelo grande público, sem muita reflexão, seja por estarem desorientados por não buscarem consumir informação fidedigna e de qualidade, seja por terem uma indolência física e intelectual que acaba sendo fatalmente acalentada por tais ideias tortas. É válido analisar algumas dessas ideias (e seus efeitos), como a da "action directe" do francês George Sorel, que teve uma penetração relevante na Esquerda. Influenciou de forma notada os movimentos de esquerda que partiram para uma radicalização subversiva, alimentou o antissemitismo, o militarismo, o nazifascismo e o bolchevismo russo. Transmutou partidos antes democráticos em simpatizantes de grupos armados e preconizou até mesmo a guerra civil e com outros países. A ideia ali contida, que teve aclamação junto aos intelectuais, é o oposto do que se espera de intelectuais: moderação, ponderação e discussões minimamente sensatas. Contudo, não se deve crucificar as ideias per se, mas sim analisar o que permitiu tamanha propagação e penetração. O fato é que por muitas décadas poucos ousaram contestar de forma aberta e veemente tais tortas ideias. As primeiras críticas, aliás, vieram apenas quando alguns intelectuais perceberam que ser simpático a tais ideias não os blindavam de serem vítimas dessa própria violência que a ideia da "action directe", defendida por eles, ensejava. Não por mero acaso que Marx, como vários outros intelectuais, preferiram migrar e viver em países mais liberais como França e Inglaterra, a ficar em países cujo proto-totalitarismo os colocava como alvos de mordaças ou mesmo de perseguição física e profissional. Mises aponta também que existia, na primeira e no início segunda metade do século XX, uma emergência de uma pretensa frente "anticomunista", de ditos liberais anticomunistas". Ressaltava, contudo, que se tratava de uma falsa dicotomia que esses tentavam conceder entre comunismo e socialismo. Tentam defender um dito socialismo não-comunista, uma espécie de social-democracia que é pintada com rótulos aparentemente amenos como o “Estado previdenciário”. Porém, quando confrontados com as contradições desse regime, que nada mais é do que uma etapa preparatória para o Comunismo, e confrontados com o que o Capitalismo de livre mercado tem a oferecer, vociferam pseudoargunentos que mimetizam as frases prontas, os clichês de Marx, Engels, Lenin e outros. Fingem lutar contra o comunismo, mas ne realidade tentam vender as ideias totalitárias fundantes do próprio manifesto comunista. O fato é que movimentos "anti-qualquer coisa" não são sérios e não podem ter uma mínima chance de sucesso. As pessoas devem, pois, lutar abertamente por aquilo que querem realizar e não evitar um suposto mal. Devem apoiar de maneira clara os pontos que querem ver concretizados na realidade e, por isso, que os liberais devem defender sem rodeios, sem restrições, a economia de mercado, se quiserem ter sucesso e não correr o risco de serem engolfados por uma aparentemente benigna “social-democracia”. No dizer exemplar de Mises "a única coisa que pode impedir as nações civilizadas da Europa Ocidental, da América e da Austrália de serem escravizadas pelo barbarismo de Moscou é o amplo e irrestrito apoio ao capitalismo laissez-faire".

Na América Latina, ainda há uma defesa muito branda e silenciosa do capitalismo, do livre mercado. Porém, a única forma de fazer com que essa bandeira seja posta em prática é, de fato, erguê-la sem nenhuma vergonha, com muito orgulho e com a certeza de que apenas o diálogo e o esclarecimento da população irá, paulatinamente, promover o caminho para políticas liberais serem, de fato, implementadas. Como o próprio Mises sempre dizia que "Idéias e somente idéias podem iluminar a escuridão".



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